
Mato Grosso tem, em média, apenas um policial militar para cada 127 quilômetros quadrados de território, a segunda pior proporção do país, atrás apenas do Amazonas. A média brasileira é de um PM para cada 21 quilômetros quadrados.
Os dados fazem parte do Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e revelam o impacto da combinação entre déficit de profissionais e as grandes dimensões territoriais de Mato Grosso.
Na Polícia Militar, a defasagem supera 46%. O efetivo previsto é de mais de 13 mil policiais, mas o número atual não chega a 7,1 mil.
A situação se repete em outras forças de segurança. Na Polícia Civil, são 2.391 policiais a menos em relação ao efetivo previsto, um déficit superior a 42%.
Para o presidente do Sindicato dos Investigadores de Polícia de Mato Grosso (Sinpol-MT), Gláucio Castanõn, falta uma política permanente de reposição dos profissionais que deixam as corporações ao longo dos anos.
“Falta uma política onde se analisa a quantidade de policiais que ingressaram, quando ingressaram, quando está prevista a aposentadoria desses policiais, aqueles policiais que se afastam ou procuram outras profissões. Isso não tem uma reposição de material humano, uma reposição de policiais que deveria”, afirma.
Segundo ele, a discussão não envolve apenas aumentar o número de profissionais, mas garantir a reposição daqueles que deixam a carreira.
Outro reflexo do cenário aparece na distribuição das unidades da Polícia Civil pelo estado.
Segundo Castanõn, Mato Grosso possui delegacias físicas da Polícia Civil em apenas 95 municípios. Nas demais localidades, investigadores lotados em cidades que possuem unidades precisam atender também municípios vizinhos.
“Nós temos hoje, no estado de Mato Grosso, que tem 142 municípios, unidades da Polícia Civil, delegacias físicas, em apenas 95. Mas e as outras cidades? Ficam sem investigação? Não, porque os policiais investigadores que trabalham nessas cidades onde têm delegacias acumulam essa função fazendo investigação nos municípios onde não têm”, explica.
Além de aumentar as distâncias percorridas, a situação contribui para a sobrecarga dos profissionais.
O presidente do Sinpol-MT afirma que o déficit também tem consequências para a rotina e a saúde dos servidores.
“Ele convive com o estresse diário, convive com as mazelas, com todo tipo de situação que nem todo cidadão está preparado. E quando, além disso, você tem uma sobrecarga de trabalho, tem que fazer além do que foi contratado para fazer, isso potencializa e traz o adoecimento do policial”, afirma Castanõn.
As dimensões de Mato Grosso tornam a cobertura ainda mais desafiadora. O estado possui mais de 900 mil quilômetros quadrados de extensão territorial e municípios separados por centenas de quilômetros.
No Corpo de Bombeiros, a proporção territorial é ainda maior: há um militar para cada 610 quilômetros quadrados em Mato Grosso.
As longas distâncias também fazem parte da rotina dos profissionais responsáveis pela perícia criminal, principalmente no interior.
O presidente do Sindicato dos Peritos Oficiais Criminais de Mato Grosso (Sindpeco), Rafael Vieira Nunes, afirma que o déficit de profissionais é um problema crônico nas unidades fora dos grandes centros.
“Na Politec, principalmente nas gerências do interior, a gente tem um problema crônico de efetivo. Esse problema acaba se traduzindo, primeiramente, numa sobrecarga nossa. Nos locais que envolvem a perícia criminal no interior, a gente precisa rodar grandes distâncias”, explica.
A redução do efetivo, segundo o representante da categoria, não significa necessariamente queda na qualidade da perícia realizada, mas pode provocar dificuldades na composição das escalas e aumentar o tempo e as distâncias necessárias para os atendimentos.
O tamanho do território também ganha peso quando se considera a faixa de fronteira de Mato Grosso com a Bolívia.
Para o promotor de Justiça Renee do Ó Souza, o baixo número de profissionais é um dos gargalos enfrentados pela segurança pública e, em Mato Grosso, a extensa região fronteiriça amplia o desafio.
“Um dos maiores gargalos relacionados ao enfrentamento do crime no Brasil é o baixo número de policiais necessários para o enfrentamento do crime. No que se refere a Mato Grosso, o assunto ainda tem uma preocupação maior, que diz respeito à nossa zona de fronteira, que é muito extensa”, afirma.
Segundo o promotor, a região é utilizada por organizações criminosas para a entrada e circulação de produtos ilícitos, o que exige atuação conjunta de diferentes forças de segurança.
“A fronteira do estado de Mato Grosso acaba servindo, infelizmente, para proporcionar o transporte, o advento de mercadorias ilícitas. E isso abastece financeiramente várias organizações criminosas”, explica.
Renee ressalta que a fiscalização de uma área tão extensa não pode ser atribuída exclusivamente às forças estaduais.
“Fiscalizar as fronteiras num estado com essas dimensões geográficas não dá para pura e simplesmente ser responsabilidade do estado de Mato Grosso. É mais do que necessário que os demais entes da federação, a União inclusive, unam esforços para fiscalizar adequadamente essas fronteiras”, afirma.
Em nota, o Governo de Mato Grosso informou que convocou mais de 4,7 mil novos profissionais para as forças de segurança, incluindo Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Penal, Corpo de Bombeiros e Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec).
Segundo o governo, somente entre janeiro e julho deste ano foram realizadas cerca de 1,4 mil nomeações.
Para Renee, o aumento do efetivo das forças policiais é uma das medidas imediatas para enfrentar os índices de criminalidade.
“De uma forma imediata, sem dúvida, a solução para os grandes índices de violência que nós temos é a melhora do efetivo destinado ao enfrentamento desses crimes, tanto da Polícia Militar quanto da Polícia Civil”, afirma.
O promotor pondera que a segurança pública também está relacionada a questões sociais, educacionais e econômicas, mas considera o reforço das forças policiais uma das primeiras medidas necessárias para enfrentar o problema.
“O fato é que uma primeira maneira de identificar uma possível solução para esse problema é, sem dúvida, a melhora no efetivo policial”, conclui.
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